brincar de palavra
eremita, alfabeto, equívoco
o livro aberto sobre a mesa posta
a mesa posta em devoção à Virgem
[que sabe separar o joio do trigo
— uma devoção equivocada —
porque o que a Virgem busca em meio aos grãos
é apenas respirar livre na órbita perfeita de todos os sóis
e acredito que há sol dentro dos buracos negros
li num livro aberto sobre a mesa
que pra chegar até a luz
[é preciso entrar no escuro
pra chegar até o amor, é preciso beijar a solidão
suavemente
e perceber que toda pele que separa também une
já disse isso em algum poema sobre desejo
depois de abrir as cartas e o corpo
o tarô de Marseille tem uma ordem para o herói — que é um louco —
entretanto,
é impossível cartografar o corpo de uma mulher
tentei — várias vezes —
e terminei sempre com o caderno em branco-pólen:
um grande salão momentos antes do baile.
dancei com os pés descalços,
[vestido rodado, olhos fechados,
sob a meia-luz da lua crescente,
e senti os pelos arrepiarem em uníssono
com a melodia sem palavras — sobressaltada —
(um corpo de mulher sobressaltado).
e depois de cada dança
pressenti o crepitar do fogo nas lamparinas,
e — sim —
era o que estava escrito no livro aberto-em-branco
sob a mesa posta.
quando olhei pra Virgem na outra ponta,
ela me sorria nas pupilas iluminadas,
quase como a prataria disposta à sua frente.
mas todo mundo sabe:
as facas de prata não têm luz própria —
mas as pupilas — sim.
